• Amanda Santos

Coringa e o que não falamos sobre a saúde mental


O filme solo de um dos vilões mais famosos dos quadrinhos estreou neste mês e vem causando polêmicas e discussões.

Um filme que impressionava já nos trailers e teasers. Uma atuação impecável, como esperada de Joaquin Phoenix. Um dos vilões mais famosos das histórias em quadrinhos, já consagrado por outras atuações emblemáticas. Tudo isso em um filme só. Assim é Coringa, o filme baseado em quadrinhos mais recente dos cinemas.

Arthur Fleck era só um cara comum, cheio de problemas

Trabalhando como palhaço durante o dia, ele tenta a sorte como comediante de stand-up à noite, mas percebe que a piada é sempre ele mesmo. Claramente acometido por distúrbios mentais mal diagnosticados e negligenciados, em uma sociedade que padece de diferentes formas de outros distúrbios, igualmente ignorados. De uma certa forma, um retrato da sociedade atual fora das telas e das páginas da HQ, um tom quase que assustadoramente realista.

A decadência do homem branco que recorre à violência como forma de escapar das frustrações da vida

Enquanto são discutidos os diversos gatilhos e incentivos contidos em séries, videogames, textos e vídeos, o filme de Todd Phillips é também questionado sobre ser um exemplo, um manual para tiroteios em massa, com críticas pesadas tratando o filme como irresponsável, perigoso, e cidades com esquemas especiais para conter possíveis atentados em sessões de cinema. Não que seja chocante o que o personagem realiza nas telas; ele é um dos maiores vilões da história, afinal de contas. O que é chocante é imaginar que alguém pode se inspirar em seus atos na telona e querer repeti-los.

Ao mesmo tempo em que Arthur Fleck é produto e sintoma de uma sociedade doente, ele também se vê como único capaz de quebrar esse ciclo, e libertar a todos e a si próprio, o expurgador da anomalia de menoridade. Quase como o indivíduo analisado por Michel Foucault (baseado em Kant) em O Governo de Si e dos Outros (Ed. Martins Fontes, 2010) para se emancipar: os homens são incapazes de sair do estado de menoridade, mesmo quando livres de todas as amarras. São covardes e preguiçosos, e estas são causa e consequência de sua menoridade. Contudo, há indivíduos que são capazes de sair desse estado: os que a alcançam a capacidade de pensar por si, e que escapam da preguiça e da covardia que paralisa aos outros.

No caso de Arthur, além dos constantes baixos na sua vida, a opressão – dos outros e do Estado, que não tratam ou aceitam seus distúrbios – e a violência o levam para um estado de completo desprendimento de si, o Coringa que todos conhecem. Imprevisível, errático, irracional. Governador de si e, ainda de acordo com Foucault e Kant, libertador dos outros já que, ao pensar por si mesmo, adquire sobre os outros a autoridade, forçando-a sobre aqueles ainda não libertos. Aqui entra um ponto importante, visto inclusive em Paulo Freire: quando não há liberdade, o sonho do oprimido é ser opressor. Arthur se “liberta” – e alguns cidadãos de Gotham inclusive o apoiam – mas toma o lugar daquele que o oprime, atuando como um justiceiro, onde é vítima, réu, juiz e executor. E aqueles que o apoiam ou o ignoram o fazem a fim de não se reconhecer nele, ou então evitar a obrigação moral de oferecer ajuda, ou ainda se desviar da culpa pela negligência.

Ao expor os radicalismos a quais estão todos expostos, Coringa é antes de tudo um reflexo de como são vistos aqueles com distúrbios mentais

Em um mundo em que há uma estimativa de 322 milhões que sofrem de depressão e 800 mil casos de suicídio registrados, a doença ainda é vista por muitos como preguiça, falta de vontade e até mesmo ignorada. Internado em uma clínica psiquiátrica ainda jovem, Arthur apresenta sinais de diversas doenças: depressão, distúrbios alimentares, comportamentos obsessivos e paranoia. Além destas, Riso e Choro Patológico, e a lista continua. Ao lutar para se reinserir na sociedade, toma vários remédios, frequenta a terapia, mas ainda sofre abusos de todas as formas e de todas as frentes, inclusive sua família. Negligenciado pelo Estado, e até por sua terapeuta. Em uma das frases mais icônicas, o personagem deixa claro a fonte de suas mazelas e frustações: “a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não a tivesse”.

É claro que o filme possui gatilhos importantes, e que podem sim servir de estopim para aqueles já em condições como as do próprio Arthur

Há inclusive uma relação do personagem com os incels (celibatários involuntários, na sigla em inglês), supremacistas brancos misóginos que são reconhecidamente os autores de muitos atentados no estilo “lobo solitário”. No entanto, mesmo sendo um retrato real até demais de uma sociedade doente, Coringa evidencia a necessidade de apoio – tanto da sociedade quanto do Estado – àqueles que sofrem de distúrbios mentais e perdem completamente o controle de suas vidas. Em tempos pós-setembro amarelo, é necessária a discussão.

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