• Amanda Santos

Black Lives Matter, o Cinema de Spike Lee



Na semana em que protestos clamando pelo fim da violência policial contra pessoas negras se espalham pelos EUA, trazemos aspectos importantes sobre a luta por igualdade racial de um de seus maiores representantes: o cineasta Spike Lee.


Bagulhos e a vida do negro estadunidense

Um cronista cinematográfico da vida afro-estadunidense. Assim é Spike Lee, o cineasta que, com seus bagulhos (do inglês joint, que é como ele chama seus filmes) vem retratando o caos e os percalços de Nova York, desde os amores de Nola Darling em She’s Gotta Have It (Ela Quer Tudo, 1986) até BlacKkKlansman (Infiltrado na Klan, 2018). Seus filmes relatam casos e contextos pelos quais diferentes pessoas negras passam em diversas situações. As histórias e nuances colocadas em seus filmes geram empatia e representação nas camadas excluídas e marginalizadas de sociedades de diversos países ocidentais (em maioria pessoas negras).


Acorde!

Em algum momento em um filme de Spike Lee, algum personagem vai olhar para a tela - quebrando assim a quarta parede - e soltará um Wake up!” sonoro e significativo. A frase é muito usada em tom subjetivo, quando um personagem secundário rompe o comportamento padronizado do protagonista; mas essa mesma frase também é um convite ao espectador: além de uma marca, é uma chamada para ação. O diretor sempre nos convida a despertar do sonho que é o cinema e olhar para a realidade em nossa volta. É assim no final de Infiltrado na Klan, onde a ficção traz cenas do protesto neonazista de Charlottesville de 2017, o terror saindo das telas e batendo à porta de quem o assiste; e é assim na cena inicial de Malcolm X (1992), onde as cenas reais do espancamento de Rodney King - transmitido ao vivo pela televisão na época - se intercalam a imagens da bandeira americana queimando aos poucos, enquanto escutamos Denzel Washington, no papel principal, discursando. O cineasta sempre nos convida a pensar além do cinema, em nossas realidades e, principalmente, na realidade das pessoas negras.


Eric Garner, George Floyd e Radio Raheem

Em 31 de maio de 2020 Spike Lee lançou, durante uma entrevista à CNN, o curta 3 Brothers (3 Irmãos, em tradução livre), que une cenas do personagem de Do the Right Thing (Faça a Coisa Certa, 1989), Radio Raheem a vídeos que mostram a abordagem policial realizada contra Eric Garner e George Floyd, ambos sufocados de maneira cruel por policiais despreparados. Em um pouco mais de um minuto e meio, o diretor traça um paralelo entre as mortes dos três - que têm a crueldade policial e a cor de suas peles como pontos em comum. Enquanto Garner foi morto por um mata-leão aplicado por muito tempo em uma interpelação, Floyd teve seu pescoço pressionado ao chão pelo joelho do policial que o abordou. Em ambos os casos, os homens repetiram a frase “eu não consigo respirar” por várias vezes, e a ação policial foi registrada pelas muitas pessoas presentes. A morte de Floyd em 25 de maio de 2020 despertou revolta e protestos por todo o país, que já duram uma semana. Você pode conferir esse curta abaixo (atenção: cenas de violência explícita).



Da 5 Bloods

O mais recente lançamento do diretor estadunidense é Da 5 Bloods (Destacamento Blood, 2020), a ser lançado mundialmente pela Netflix em 12 de junho de 2020. Com a ideia que podemos ver constantemente em seus filmes de que o passado não é algo que fica para trás, mas algo ligado ao presente, o filme traz cinco homens negros que lutaram durante a guerra do Vietnã e retornam para recuperar o corpo de seu oficial, enterrado próximo a um tesouro. Um lado da guerra que inclusive não é muito explorado: o de soldados negros que lutam em países estrangeiros por uma liberdade que não possuíam em casa. O uso de flashbacks e sequências inspiradas em relatos reais dos veteranos de guerra negros mostram as condições psicológicas do combate sofridas por uma população já marginalizada e sem assistência. O cinema de Spike Lee ainda tem muito o que nos entregar sobre nossa realidade e a realidade daqueles que são marginalizados pelo sistema. E é por isso que ele está entre os maiores diretores da história.


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